Vestibular como anomalia?

“O consenso sobre a educação pública básica, oferecida para a maior parte da população de nosso país, é que ela está longe de ter a qualidade que deveria ter. Enquanto isso, o ensino superior público vai em sentido oposto e continua atraindo milhares de estudantes, retendo regularmente os mais preparados. Entre esses dois (des)níveis de ensino fica o vestibular.

Centenas de milhares de estudantes, a cada ano, procuram – por meio do vestibular – um lugar entre as melhores vagas oferecidas. Com o poder de recusar, por vezes, mais de 95% dos inscritos e de proporcionar a poucos o privilégio de ter uma educação superior gratuita e de qualidade, os exames vestibulares ficam sob luzes intensas dos veículos de comunicação – sobretudo entre dezembro e março.

Assim, embora não seja propriamente um processo de natureza educacional, o vestibular se torna o mais visível e comentado elemento do sistema de ensino. Por causa disso, muito se fala sobre as características dos vestibulares, algumas reais, outras apenas mitológicas.

O problema é que, prejudicando a qualidade dos debates e decisões, em muitos setores as características míticas ainda predominam. Apenas para ficar nos mitos mais comuns sobre o vestibular, temos o seguinte trio.

1) As questões de múltipla opção não selecionam pelo conhecimento, pois podem ser respondidas com dicas e truques ou sorte. 2) O vestibular atual pede conhecimentos desnecessários que praticamente só exigem memorização. Os mitos um e dois levam ao mito três: Escolas de ensino médio e cursinhos, pela influência malévola do vestibular, oferecem, no lugar de conhecimentos, dicas, truques e “decorebas” para seus alunos terem sucesso.

Cada um desses mitos não resiste ao confronto com a realidade da seleção realizada pelos grandes vestibulares. Mas são muito bem-sucedidos em reuniões político-acadêmicas que não se embasam em estudos sérios.

Nos vestibulares de medicina da Fuvest, Unicamp, Unifesp, Unesp e UFSCar, que têm praticamente os mesmos 10 mil candidatos, encontramos invariavelmente a coincidência dos aprovados. Certamente isso não se deve aos aprovados terem sido treinados com truques e dicas para cada um desses exames. Eles mostraram, isto sim, firmes conhecimentos básicos em todas essas avaliações a que foram submetidos – tivessem a forma de testes ou de questões analíticas.

O vestibular é uma das instituições de maior credibilidade em nosso país. Ao longo do tempo, milhões de estudantes – e não é força de expressão – têm se submetido a esses exames de seleção sem obter sucesso, mas sem questionar a lisura e a transparência do processo que os eliminou.

O estudante da escola pública de ensino médio nunca questiona o vestibular, alegando ser ele ilícito. Ele reclama é do fato de não ter sido aprovado porque não teve acesso ao conhecimento que deveria ter sido proporcionado a ele.

Por isso, mudanças nos vestibulares não devem ser aplaudidas por serem mudanças. É fácil acusar o vestibular de problemas que não são atinentes a ele. É fácil valer-se de mitos de trânsito comum para ver valor em qualquer mudança. Ao contrário do que diz o editorial desta Folha de 23 de março, o vestibular não deve ser visto como anomalia. A má qualidade da educação básica pública, sim.

Quanto ao ensino particular, pode-se dizer com certeza que não está sofrendo pressão para atender exigências absurdas ou indevidas do vestibular. O que o vestibular atual passa é a necessidade de uma formação ampla em ciências e humanidades – que não seja apenas blablablá superficial. E sobra, sim, tempo para a escola incluir seus valores.

Quanto a valores, o vestibular tem outro grande mérito: o de passar aos jovens a ideia de que, no Brasil, existem processos seletivos sérios e respeitados. Isso pode não ser grande coisa em países escandinavos. Mas, em nosso país, é algo muito, muitíssimo raro. O vestibular não precisa ser atacado. Precisa ser preservado.” (Artigo publicado na “Folha de SP”)

Carlos Eduardo Bindi é educador e diretor do Etapa Ensino e Cultura.

 Essa é mais uma opinião sobre as declarações do ministro da educação, Fernando Haddad, que considera o nosso vestibular uma “anomalia brasileira”. Ainda não entendi como podemos culpar um processo seletivo por um ensino deficitário. Gostaria muito de acreditar, como o ministro (se é que ele acredita), que um novo ENEM mudaria toda a realidade excludente da educação brasileira.

Esse arquivo foi selecionado e enviado pelo professor Paulo Emílio, diretor da unidade tijuca, ajudando a dinamizar nossos debates no blog. Participe você também. Dê sua opinião. Pode ser através de um simples comentário ou nos encaminhando material para postagem. O email é vestibular@colegioqi.com.br

Um ótimo final de semana para todos.

Renato Pellizzari

3 respostas para “Vestibular como anomalia?”

  1. Camille disse:

    Acredito que um dos maiores bloqueios para quem pretende fazer o vestibular - e se esforça pra isso - é o medo que o próprio passa. Desde sempre ouvimos de alguns professores e alunos que estamos nos preparando para ele, porque ele é extremamente difícil e só a pessoa que sabe tudo sobre tudo consegue passar.
    Normalmente quem conhece uma pessoa que já fez vestibular (recentemente, não o de anos atrás) escuta que tem que aprender os truques e dicas e não esquecê-los na hora da prova. E, por causa disso, muitas vezes o pré-vestibulando resolve se concentrar nessas dicas/truques e esquece que o mais importante é aprender.
    Conhecimento tem que ser dado a todas as pessoas, de escola particular ou não, e todas serem capazes de disputar uma vaga.

  2. Graça Chagas disse:

    O nosso caro ministro parece conhcer muito pouco sobre a Históra da Educação nesse país, o que, aliás é uma constante.
    O Vestibular existe há muitas décadas e COLÉGIOS PÚBLICOS como o Pedro II, Instituto de Educação, Prado Júnior, André Maurois, e muitos outros, sempre apresentaram os candidatos mais preparados.
    Gostaria que o caro ministro soubesse que, se o vestibular é uma ANOMALIA brasileira, o que se fez com a Educação Pública no Brasil É UMA ABERRAÇÃO sem falar, é claro, no profundo desrespeito com a população.
    Agora a pergunta que não quer calar: professores de Ensino Médio (aqueles que lidam diretamente com essa questão) foram convocados a opinar?
    Até onde pude saber não foram, ou seja, a reforma virá de cima, e feita por profissionais que tiveram pouco contato com esse segmento ou, o que é pior e frequente, nunca tiveram contato nenhum.
    Há necessidade de mudanças no atual modelo de Vestibular? Sim, há, mas não me venham dizer que o Novo Enem vai democratizar o acesso à Universidade. Todos aqueles que viram o ranking do Enem 2008 puderam perceber que isso é mais uma lenda, como enfatizou o professor Carlos Eduardo Bindi, ne texto dessa postagem.
    Para finalizar: estamos no início de maio e nós, professores dessa ANOMALIA BRASILEIRA, estamos aguardando que as autoridades competentes (????) apresentem o novo programa.
    Bom domingo.
    Graça Chagas

  3. Luccas Monte Mór disse:

    Muito bom texto, concordo com tudo.
    “o vestibular não deve ser visto como anomalia. A má qualidade da educação básica pública, sim.”

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