João Cabral de Melo Neto: uma poesia água com açúcar (Parte 5)

Falo somente para quem falo:

quem padece sono de morto

e precisa de um despertador

acre, como o sol sobre o olho:

 

que é quando o sol é estridente,

a contra-pêlo, imperioso,

e bate nas pálpebras como

se bate numa porta a socos.

 

 

         A última parte do poema é um recado para todos nós, que dormimos um sono de morto e que não abrimos os olhos a essas tragédias que se repetem a cada dia em todas as partes do mundo. Somos capazes de acordarmos e dormirmos como se nada tivéssemos a ver com a miséria alheia. Quando, na verdade, fazemos parte disso sim, porque somos as mentes pensantes que podem criar alternativas e soluções. Afinal, não é o que deveríamos fazer nas universidades: olhar o mundo, entender o mundo, mudar o mundo? Tudo bem, não fomos nós que produzimos toda essa miséria. Certamente, não poderão nos acusar disso. Mas, se felizmente não entramos para a história como os causadores do problema, por que sairmos dela como aqueles que não o solucionaram?

 

Pois é, certamente Garapa é um despertador amargo como o sol sobre o olho. E depois dele, acho que vou pensar duas vezes antes de dizer que um filme de “Sessão da Tarde” é simplesmente água com açúcar.

 

Márcio Hilário

(06/06/09)

Faça um comentário