Falo somente por quem falo:
por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol,
pelo gavião e outras rapinas:
e onde estão os solos inertes
de tantas condições caatinga
em que só cabe cultivar
o que é sinônimo de míngua.
* * *
Quem é esse que consegue sobreviver até mesmo quando tudo ao seu redor prova que a vida é impossível? O sertanejo é antes de tudo um bravo, já dizia Euclides da Cunha, mas João Cabral, diante de tanta míngua afirma que difícil é saber / (…) onde começa o homem / naquele homem. / Difícil é saber / se aquele homem / já não está / mais aquém do homem; / mais aquém do homem / ao menos capaz de roer / os ossos do ofício; / capaz de sangrar / na praça; / capaz de gritar / se a moenda lhe mastigar o braço. Infelizmente, existem pessoas que sofrem tanto que já nem mesmo lembram que são pessoas.
Os personagens do poeta e as pessoas do documentarista se confundem numa mesma “vida severina”: os últimos versos aqui citados também foram do poema O cão sem plumas. Título estranho, já que um cão tem pelos e não plumas, mas no próprio poema isso se explica: Ser um cão sem plumas É quando a alguma coisa / roem tão fundo / até o que não tem. É o que ocorre em Garapa, quando, por exemplo, além de toda aquela miséria, vemos as moscas varejeiras disputarem as feridas abertas na pele de uma criança sem plumas, ou ainda as mulheres sem plumas serem exploradas pela lógica de uma sociedade patriarcal, na qual o homem não tem de se responsabilizar pelo cuidado das coisas da casa.
Márcio Hilário (continua)