João Cabral de Melo Neto: uma poesia água com açúcar (Parte 3)

Falo somente do que falo:

do seco e das suas paisagens,

Nordestes, debaixo de um sol

ali do mais quente vinagre:

 

que reduz ao espinhaço,

cresta o simplesmente folhagem,

folha prolixa, folharada,

onde possa esconder-se a fraude.

 

*  *  *

 

         Aqui o poeta faz uma apresentação do espaço, ou seja, do sertão. Existem imagens que são facilmente recuperáveis pela nossa mente quando estamos diante de palavras conhecidas. No entanto, elas podem não condizer com aquilo que realmente o poeta deseja representar. Nesse sentido, Cabral opta por metáforas concretas (palavras que conceito pela coisa): por exemplo, no poema O cão sem plumas, ele diz que a água do rio ao qual se refere (de lama e esgoto) em nada se parece com a água do copo de água. Por isso ele pergunta: Por que então seus olhos / vinham pintados de azul / nos mapas? Observemos, então, que, nesse cenário, não cabem folhagem, folharada ou folha prolixa (bonita e vistosa), mas cabem as árvores secas.

        

         E o que vemos no documentário? Longas tomadas em que as mulheres caminham, caminham, caminham e caminham por paisagens secas e cheias de não-vida. Aliás, a passagem de tempo está representada no filme também pela imagem do pássaro morto na árvore, que vai aparecendo cada vez mais seco.

Márcio Hilário (continua)

Uma resposta para “João Cabral de Melo Neto: uma poesia água com açúcar (Parte 3)”

  1. jurema disse:

    olha eu queria um poema com metáforas

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