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Racismo… até quando???

18 de outubro de 2010

“A partida do Cagliari em casa contra a Inter de Milão foi interrompida por aproximadamente 3 minutos neste domingo por conta de cantos racistas. O placar estava O a O quando o árbitro se aproximou das arquibancadas e fez um pedido para que os torcedores parassem com as músicas.

Samuel Eto'o

Samuel Eto'o

O jogo, válido pela sétima rodada do Campeonato Italiano, foi retomado pouco depois. Comentaristas de TV da Sardenha disseram que os cânticos foram dirigidos ao atacante camaronês da equipe de Mião, Samuel Eto’o, que marcou o gol da vitória do seu time por 1 a 0. ” (folha.com-esporte)

É impressionante que, em pleno século 21, depois de tantos horrores presenciados pela humanidade devido às manifestações racistas, ainda tenhamos que sofrer com essas aberrações. Até quando teremos que suportar a intolerante ignorância???

O gol do camaronês me fez lebrar, em parte, o afro-americano Jesse Owens que, nas olimpíadas de Berlim (1936), ganhou quatro medalhas de ouro nos 100m, 200m, revezamento 4×100 e salto em distância, acabando com as pretensões de Adolf Hitler que tentava comprovar uma suposta superioridade dos “arianos”.

Jesse Owens -1936 olympics

Jesse Owens -1936 olympics

Cabe a todos nós lutarmos contra o atraso que representa a manutenção do racismo no mundo.

Renato Pellizzari

EDUCAÇÃO: O CAMINHO PARA O PROGRESSO

14 de agosto de 2009

Até escrever o último post sobre política eu já tinha esbravelado muito em sala de aula. Afinal, este é sempre o local no qual nós, professores, gritamos nossas ideias. Nossos alunos são nosso melhor público. Muitas vezes aqueles que melhor nos compreendem.

Depois de muitos debates, um aluno me perguntou se eu tinha interesse em ler um texto seu de quando ele ainda estudava no Colégio Pedro II e estava indignado com a política em relação a educação. Não só aceitei como pedi permissão para postar aqui no nosso blog. Aí vai:

 ”Quantas vezes você, caro leitor, já fez a seguinte afirmação: o problema do Brasil é ter governantes que não se mobilizam a mudar esse país? Com certeza muitas! Mas será que você já parou para pensar no que teria de ser mudado; onde está essa negligência que garantimos existir? Caso você já o tenha feito, reparou que todos os caminhos sempre levam ao mesmo lugar: a educação?

Podemos tratar da educação de vários modos, discriminando os diversos tipos de ensino, mas vou me ater apenas à Educação Básica, que considero ser a mais importante – uma vez em que influenciará em todo o processo de aprendizagem, sobretudo no Ensino Superior.

Não podemos abordar outros assuntos sem termos uma base que nos torne capazes para isso. A Educação Básica é considerada o ponto de partida para as mudanças sociais em um país emergente – como o Brasil -, e a sua precariedade é a principal responsável pelos problemas de ordem sócio-econômica que presenciamos em nosso cotidiano.

Tão fundamental – e imprescindível – é, ainda, a Educação Básica para o ensino superior, que formará jovens aptos a ingressar no mercado de trabalho e a encontrar soluções para os problemas aqui citados.

Lamentável é que, apesar desses fatos serem do conhecimento de todos, ainda vemos escolas em situações tão críticas, com problemas estruturais, carência de professores e (não por acaso) médias tão baixas em exames de avaliação, como o IDEB – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica.

Nós, jovens, temos direito a uma educação de excelência. Não queremos apenas estar em uma escola; queremos estudar em uma escola de qualidade, com ótimos professores, bibliotecas e laboratórios: queremos, assim como todos, o melhor!

A educação é um investimento e, como tal, terá seu retorno a longo prazo. O importante é nos conscientizarmos de que esse investimento deve começar hoje, e deve ser feito sem medirmos esforços para que, no futuro, nós cidadãos possamos construir, juntos, o país que tanto desejamos. E você, o que faria para melhorar a educação?”

LEONARDO MENDES DA SILVA COSTA

 

Léo, muito obrigado pela sua participação aqui no Blog do Qi.

Aqueles que quiserem participar, basta enviar um email para vestibular@colegioqi.com.br.

 

Abraços,

Renato Pellizzari.

Manifestação “FORA SARNEY”!!!

13 de agosto de 2009

Não sei se ainda tenho vontade de falar o óbvio. É tão desgastante pensar em todo o processo de formação política de nosso país e a corrupção que parece enraizada, que relutei para escrever este post.

 Não é mistério pra ninguém que Sarney é um grande coronel, senão o maior em atividade no país (depois da morte de ACM). Sabemos que quase todas as discussões no Congresso brasileiro parecem parte de um roteiro de uma peça de teatro (das dombras, é claro).

http://www.forasarney.com

http://www.forasarney.com

Quando uma briga ocorre, alguém “joga algo no ventilador”, começa uma investigação. Eu não sei pra quê. É uma quantidade tão grande de pessoas com o “rabo preso” que ninguém quer se expor e os casos terminam sempre arquivados. Na maior cara-de-pau!!! Não existe constrangimento!!! O presidente da república teve que lembrar os parlamentares que estes devem tomar cuidado com a conduta, pois está tudo sendo transmitido pelos jornais!!!

Por falar em presidente…mesmo com toda proteção de Lula ao presidente do senado (que será fundamental na campanha política de Dilma Roussef) ele sabe os limites da tolerância…

“O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, decidiu antecipar a sua volta ao Brasil do Equador, preocupado com a saúde do vice-presidente José Alencar, que luta há 12 anos contra um câncer no abdômen.” (http://www.sidneyrezende.com)

Será que a preocupação é com a saúde do vice ou o medo de que ele morra enquanto Lula não esteja no país? Pois neste caso, Sarney assumiria as funções de PRESIDENTE DA REPÚBLICA. Aí seria demais!!!

Então, é por tudo isso que eu não queria escrever sobre política. Mas semana passada aconteceu algo muito interessante. Uma aluna minha cogitou a possibilidade de organizarmos uma manifestação contra o Sarney. Gostei da ideia.

http://www.forasarney.com

http://www.forasarney.com

Gostei, não por acreditar que poderemos “derrubar” seja lá quem for ainda (até porque não acredito que os cara-pintadas derrubaram o Collor em 1992), mas por acreditar que podemos mudar alguma coisa do lado de cá, dentro desses adolescentes. O fato deles pensarem no que está acontecendo, colocarem uma roupa preta, pegarem uma bandeira do Brasil, sair de casa em um determinado dia com a finalidade de demonstrar sua indignação… isso sim é FANTASTICO!!!

Precisamos aprender a nos mobilizar. Aprender com franceses e argentinos. Não podemos nos acomodar. Qual é a mensagem que vamos passar para nossos filhos? Não tem jeito? Será sempre assim? O VOTO NÃO É A ÚNICA FORMA DE PARTICIPAR DA POLÍTICA NACIONAL!!!

Enquanto debatíamos a possibilidade de organizarmos a tal manifestação, recebemos a informação de que está sendo organizada uma outra, que ocorrerá em 14 estados no próximo sábado dia 15. Pra começarmos…por que não??? Para maiores informações entre no site da manifestação.

 Renato Pellizzari

GRIPE SUÍNA E ADIAMENTO DAS AULAS!!!

5 de agosto de 2009

Nosso Blog está de volta. Depois de um pequeno recesso, nosso espaço de notícias, debates e entretenimento está a todo vapor!!!

Nosso primeiro post de agosto trata de um assunto bastante complicado: a gripe suína!!!

http://maiscoisas.files.wordpress.com/2009/04/26908220649g.jpg

http://maiscoisas.files.wordpress.com/2009/04/26908220649g.jpg

Primeiramente, seria muito interessante lembrar que essa está longe de ser a primeira gripe a assustar a população mundial. Pra falar a verdade esta é a sexta!!! Isso mesmo, já tivemos cinco outras pandemias que alarmaram o mundo. Vamos relembrar?

A primeira delas foi a Gripe Russa que, entre 1889 e 1890, atravessou o país inteiro, da Sibéria a São Petesburgo, em apenas 15 dias. Alcaçou, ainda, o restante da Europa, parte da Ásia, norte da África, EUA e América do Sul. Estima-se que tenha matado 1,5 milhão de pessoas.

A segunda foi, sem dúvidas, a maior e mais devastadora de todas. Logo após a primeira guerra mundial (1914/18), onde morreram, aproximadamente, 20 milhões de pessoas, o mundo assistiu a uma mortandade ainda maior: a Gripe Espanhola (1918/19). Os números são imprecisos, mas as mortes podem ter chegado a 100 milhões!!! Na Europa, cidades inteiras ficaram de quarentena. Dos primeiros sintomas ao óbito, passavam-se poucos dias, ou mesmo horas.

Tivemos, ainda, as gripes Asiática (1957/58), de Hong Kong (1968/69) e Aviária (1997/2004) que mataram, respectivamente, 2 milhões, 1 milão e 300 pessoas. O desenvolvimento dos antibióticos e vacinas faz com que o número de mortos seja cada vez menor. No entanto, precisamos estar atentos.

A gripe Suína (2009/?) é o mais novo desafio que teremos que enfrentar. Os últimos números falam em, aproximadamente, 300 casos da doença no Estado do Rio de Janeiro. No país o número de mortos já se aproxima dos 100. Exatamente por estas informações que o Ministério da Saúde está criando estratégias para conter o avanço da doença. Com isso, 70% das escolas adiaram o retorno às aulas para o dia 10 de agosto, INCLUSIVE O QI.

Pedimos que todos os alunos e responsáveis fiquem atentos ao BLOG e ao SITE, pois através deles transmitiremos todas as informações sobre o andamento da pandemia e o retorno às aulas. Enquanto isso, mantenham-se informados sobre o vírus e as precauções a serem tomadas no site do Ministério da Saúde.

João Cabral de Melo Neto: uma poesia água com açúcar (Parte 5)

15 de junho de 2009

Falo somente para quem falo:

quem padece sono de morto

e precisa de um despertador

acre, como o sol sobre o olho:

 

que é quando o sol é estridente,

a contra-pêlo, imperioso,

e bate nas pálpebras como

se bate numa porta a socos.

 

 

         A última parte do poema é um recado para todos nós, que dormimos um sono de morto e que não abrimos os olhos a essas tragédias que se repetem a cada dia em todas as partes do mundo. Somos capazes de acordarmos e dormirmos como se nada tivéssemos a ver com a miséria alheia. Quando, na verdade, fazemos parte disso sim, porque somos as mentes pensantes que podem criar alternativas e soluções. Afinal, não é o que deveríamos fazer nas universidades: olhar o mundo, entender o mundo, mudar o mundo? Tudo bem, não fomos nós que produzimos toda essa miséria. Certamente, não poderão nos acusar disso. Mas, se felizmente não entramos para a história como os causadores do problema, por que sairmos dela como aqueles que não o solucionaram?

 

Pois é, certamente Garapa é um despertador amargo como o sol sobre o olho. E depois dele, acho que vou pensar duas vezes antes de dizer que um filme de “Sessão da Tarde” é simplesmente água com açúcar.

 

Márcio Hilário

(06/06/09)

João Cabral de Melo Neto: uma poesia água com açúcar (Parte 4)

14 de junho de 2009

Falo somente por quem falo:

por quem existe nesses climas

condicionados pelo sol,

pelo gavião e outras rapinas:

 

e onde estão os solos inertes

de tantas condições caatinga

em que só cabe cultivar

o que é sinônimo de míngua.

 

*  *  *

 

         Quem é esse que consegue sobreviver até mesmo quando tudo ao seu redor prova que a vida é impossível? O sertanejo é antes de tudo um bravo, já dizia Euclides da Cunha, mas João Cabral, diante de tanta míngua afirma que difícil é saber / (…) onde começa o homem / naquele homem. / Difícil é saber / se aquele homem / já não está / mais aquém do homem; / mais aquém do homem / ao menos capaz de roer / os ossos do ofício; / capaz de sangrar / na praça; / capaz de gritar / se a moenda lhe mastigar o braço. Infelizmente, existem pessoas que sofrem tanto que já nem mesmo lembram que são pessoas.

        

           Os personagens do poeta e as pessoas do documentarista se confundem numa mesma “vida severina”: os últimos versos aqui citados também foram do poema O cão sem plumas. Título estranho, já que um cão tem pelos e não plumas, mas no próprio poema isso se explica: Ser um cão sem plumas É quando a alguma coisa / roem tão fundo / até o que não tem. É o que ocorre em Garapa, quando, por exemplo, além de toda aquela miséria, vemos as moscas varejeiras disputarem as feridas abertas na pele de uma criança sem plumas, ou ainda as mulheres sem plumas serem exploradas pela lógica de uma sociedade patriarcal, na qual o homem não tem de se responsabilizar pelo cuidado das coisas da casa.

Márcio Hilário (continua)

João Cabral de Melo Neto: uma poesia água com açúcar (Parte 3)

13 de junho de 2009

Falo somente do que falo:

do seco e das suas paisagens,

Nordestes, debaixo de um sol

ali do mais quente vinagre:

 

que reduz ao espinhaço,

cresta o simplesmente folhagem,

folha prolixa, folharada,

onde possa esconder-se a fraude.

 

*  *  *

 

         Aqui o poeta faz uma apresentação do espaço, ou seja, do sertão. Existem imagens que são facilmente recuperáveis pela nossa mente quando estamos diante de palavras conhecidas. No entanto, elas podem não condizer com aquilo que realmente o poeta deseja representar. Nesse sentido, Cabral opta por metáforas concretas (palavras que conceito pela coisa): por exemplo, no poema O cão sem plumas, ele diz que a água do rio ao qual se refere (de lama e esgoto) em nada se parece com a água do copo de água. Por isso ele pergunta: Por que então seus olhos / vinham pintados de azul / nos mapas? Observemos, então, que, nesse cenário, não cabem folhagem, folharada ou folha prolixa (bonita e vistosa), mas cabem as árvores secas.

        

         E o que vemos no documentário? Longas tomadas em que as mulheres caminham, caminham, caminham e caminham por paisagens secas e cheias de não-vida. Aliás, a passagem de tempo está representada no filme também pela imagem do pássaro morto na árvore, que vai aparecendo cada vez mais seco.

Márcio Hilário (continua)

João Cabral de Melo Neto: uma poesia água com açúcar (Parte 2)

12 de junho de 2009

Resolvi, então, aceitar ao desafio de contribuir para o blog do meu amigo-irmão (espero mesmo é não atrapalhar!) interpretando um dos meus poemas preferidos de João Cabral para estabelecer um diálogo com o filme Garapa.

 

 

“Graciliano Ramos”, ao mesmo tempo em que homenageia a obra desse grande escritor, que também trabalhava a temática do sertão, faz uma auto-apresentação do projeto estético cabralino de composição. Para fins didáticos, apresentarei o poema parte a parte, entremeando-o de comentários. Lá vai:

 

GRACILIANO RAMOS

 

Falo somente com o que falo:

com as mesmas vinte palavras

girando ao redor do sol

que as limpa do que não é faca:

 

de toda uma crosta viscosa,

resto de janta abaianada,

que fica na lâmina e cega

seu rosto da cicatriz clara.

 

*  *  *

 

         Para João Cabral, a dureza de uma “vida severina” não pode ser representada por uma linguagem rebuscada e doce, como no falso sentido que o meu título sugeria antes. Uma condição tão sub-humana jamais deve ser ocultada pelo ritmo de uma entonação melódica de um verso cheio de lirismo.

 

        

      Para falar sobre o seco, é preciso ter também uma linguagem seca. Por isso, ele afirma trabalhar apenas com vinte palavras apenas. A imagem do sol retrata o elemento mais presente na vida de um sertanejo: o castigo do astro-rei, intensificado mais ainda pela ausência de chuva.

 

        

        Com relação à faca (uma dessas vinte palavras de sua poesia), ela é um símbolo da dor, do corte, do que provoca a ferida na pele e na alma do homem do sertão. Uma faca é algo que corta e certamente não passaríamos a língua na sua lâmina. Mas, curiosamente, se essa mesma faca estivesse suja pela deliciosa cobertura de um bolo, poderíamos cometer tal imprudência.

 

        

      É como Cabral vê a questão da linguagem: os floreios de uma palavra bela e sonora são como a cobertura do bolo, que esconde o que é a vida de faca do sertanejo. Vale lembrar que o título de um dos seus poemas é “Uma faca só lâmina” (veja que aqui não está nem o cabo para proteger a mão do corte!).

        

       O paralelo que podemos fazer com Garapa observa-se também no nível da linguagem: José Padilha, assim como já o fizera o fotógrafo Sebastião Salgado, optou pelas imagens em preto-e-branco. Certamente, aquelas imagens eram cruéis demais para merecerem algum colorido.

 

 

Márcio Hilário (continua)

Obs.: FELIZ DIA DOS NAMORADOS!!!

Um problema maravilhoso!!!

11 de junho de 2009

Como coloquei em um post anterior, convidei meu grande amigo Márcio Hilário a escrever sempre que quizesse no nosso blog. Fiquei muito feliz ao perceber que ele tinha se sentido, de certa forma, lisonjeado com o convite. O resultado após nossa clássica sessão de cinema de terças feiras foi um texto imenso sobre o “incômodo” (e fantástico) filme de José Padilha: Garapa.

E porque eu chamo o texto de um maravilhoso problema??? Por causa do tamanho!!! Eu esqueci de comentar com o nosso autor que o blog é “feito” de pequenas e rápidas informações. Quando comecei a ler o trabalho, ao mesmo tempo que segurava as lágrimas pela beleza dos sentimentos expressados em palavras, pensava: como vou passar essa preciosidade adiante??? 

Conversei com meus alunos leitores do terceiro ano do leblon e, juntos, tivemos uma ideia. Vou fazer uma sequência de posts, fragmentando o texto. Assim, poderemos desfrutar da obra por completo. Então, de hoje até segunda feira, teremos 5 posts. Aproveitem…

João Cabral de Melo Neto: uma poesia água com açúcar

 

Na última terça-feira, dia 02/06, aceitei ao convite do meu grande amigo-irmão Renato Pellizzari para retomarmos a nossa rotina semanal de cinéfilos. A sugestão do filme dessa vez partiu dele mesmo: Garapa, de José Padilha – diretor conhecido do grande público graças ao polêmico Tropa de Elite e pelo excelente documentário Ônibus 174.

 

 

Como somos movidos a debates e reflexões, após o filme, o que era bate-papo, veio a mim como um convite e tocou em mim como um desafio. Eis o motivo deste pequeno texto que aqui se vai tecendo.

 

 

O título tenta provocar e minimamente induzir o leitor ao erro: não, a poesia de João Cabral de Melo Neto não é ridiculamente fácil de entender; não, a linguagem não é melosamente carregada de uma doçura lírica à moda romântica; mas, sim, a poesia cabralina é sim água com açúcar. Pelo menos, tornou-se isso pra mim, depois que assisti ao filme de Padilha.

 

 

Garapa é o nome que se dá à mistura de água barrenta (tirada dos açudes em que os homens se confundem com os bichos, como no poema de Manuel Bandeira) com umas colheradas de açúcar. Esse é o único alimento que as mães do nosso sertão nordestino têm para dar a seus filhos, que muitas o tomam na mamadeira como se fosse leite. Soco no estômago!

 

 

É por isso que Cabral pra mim virou água com açúcar. Não porque minha visão sobre o poeta mudou, mas é que descobri um novo sinônimo pra Fome. Saí da sessão humilhado, envergonhado da minha cegueira, e, relembrando as cenas, percebi que aquelas pessoas-personagens já estiveram em Morte e vida severina, dizendo:

 

Somos muitos Severinos  
iguais em tudo na vida:   
na mesma cabeça grande   
que a custo é que se equilibra,   
no mesmo ventre crescido   
sobre as mesmas pernas finas   
e iguais também porque o sangue   
que usamos tem pouca tinta.   

 

E se somos Severinos   
iguais em tudo na vida,   
morremos de morte igual,   
mesma morte severina:   
que é a morte de que se morre   
de velhice antes dos trinta,   
de emboscada antes dos vinte   
de fome um pouco por dia   
(de fraqueza e de doença   
é que a morte severina   
ataca em qualquer idade,   
e até gente não nascida). 

Márcio Hilário (continua) 

Cuba de volta à OEA???

9 de junho de 2009

Revertendo um dos marcos da Guerra Fria no continente, os chanceleres que participam da 39ª Assembleia Geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), realizado em Honduras, chegaram na última quarta-feira a um acordo para revogar a suspensão de Cuba que começou há 47 anos.

“Já foi aprovada neste momento por todos os chanceleres, por consenso. Essa é uma notícia muito boa, reflete a mudança de época que se está vivendo na América Latina”, disse o ministro das Relações Exteriores do Equador, Fander Falconi. Segundo o equatoriano a decisão foi tomada “sem condições”, mas estabelece mecanismos para o retorno de Cuba –incluindo a concordância do país de cumprir as convenções da OEA sobre direitos humanos e outros assuntos.

Representantes da OEA

Alejandro Bolívar/Efe

Cuba foi suspensa da OEA por uma resolução aprovada em 22 de janeiro de 1962, em punição ao país por ter se juntado ao bloco comunista. A organização, sob forte influência americana, acusou o regime cubano de receber armas de “potências comunistas extracontinentais”, uma referência à União Soviética e à China. Na época, os Estados Unidos alegaram que a relação de Cuba com os países comunistas ameaçava o equilíbrio da região.  (fonte: Folha Online)

A postura do governo Obama ficou clara desde o início do mandato quando o presidente acabou com as restrições às viagens e envio de dinheiro à ilha. A promessa de acabar com a base de Guantánamo e, agora, o fim do veto à participação de Cuba na OEA demonstram a tentativa de aproximação entre os “antigos” rivais.

Base de Guantánamo

http://www.webhavana.com/CubaMaps/index.php?page=141

É verdade que não podemos ter certeza das intenções norte-americanas. No entanto, temos que dar um (ou mais) voto de confiança para esse presidente que tem surpreendido ao mundo com medidas consideradas impossíveis há um ano atrás. Até com o islã Barack Obama está tentando uma aproximação sem poupar críticas ao governo de Israel (este assunto merece um post só pra ele!!!).

Por outro lado, tentamos entender o fato do governo cubano estar “esnobando” a organização, que o desprezou por 47 anos, ao dizer que não existe interesse em fazer parte da mesma. Na verdade, enquanto Fidel Castro estiver vivo algumas questões ainda serão difíceis de resolver. O ex-ditador cubano escreveu no jornal estatal “Granma” que a OEA deveria não existir, e que a organização, historicamente, tem “aberto portas para o Cavalo de Troia –os Estados Unidos– devastar a América Latina”.  

Além disso, não podemos esquecer que o ingresso na OEA e, talvez, um possível fim do embargo econômico à ilha colocariam um fim nas melhores justificativas do governo cubano para todos os problemas que o país tem enfrentado nos últimos anos. Assim sendo, quem seria o culpado? Fidel?

Acredito que a aproximação seja uma questão de tempo. Um “charme” daqui, outro dali, e em breve tudo estará encaminhado. Cuba precisa de uma reestruturação e não deve perder essa grande oportunidade que o governo Obama está começando a oferecer. Vamos aguardar…

Aproveite e confira a opinião do nosso ministro das relações exteriores, Celso Amorim, sobre o assunto em reportagem da Folha Online.

Renato Pellizzari