Como coloquei em um post anterior, convidei meu grande amigo Márcio Hilário a escrever sempre que quizesse no nosso blog. Fiquei muito feliz ao perceber que ele tinha se sentido, de certa forma, lisonjeado com o convite. O resultado após nossa clássica sessão de cinema de terças feiras foi um texto imenso sobre o “incômodo” (e fantástico) filme de José Padilha: Garapa.
E porque eu chamo o texto de um maravilhoso problema??? Por causa do tamanho!!! Eu esqueci de comentar com o nosso autor que o blog é “feito” de pequenas e rápidas informações. Quando comecei a ler o trabalho, ao mesmo tempo que segurava as lágrimas pela beleza dos sentimentos expressados em palavras, pensava: como vou passar essa preciosidade adiante???
Conversei com meus alunos leitores do terceiro ano do leblon e, juntos, tivemos uma ideia. Vou fazer uma sequência de posts, fragmentando o texto. Assim, poderemos desfrutar da obra por completo. Então, de hoje até segunda feira, teremos 5 posts. Aproveitem…
João Cabral de Melo Neto: uma poesia água com açúcar
Na última terça-feira, dia 02/06, aceitei ao convite do meu grande amigo-irmão Renato Pellizzari para retomarmos a nossa rotina semanal de cinéfilos. A sugestão do filme dessa vez partiu dele mesmo: Garapa, de José Padilha – diretor conhecido do grande público graças ao polêmico Tropa de Elite e pelo excelente documentário Ônibus 174.
Como somos movidos a debates e reflexões, após o filme, o que era bate-papo, veio a mim como um convite e tocou em mim como um desafio. Eis o motivo deste pequeno texto que aqui se vai tecendo.
O título tenta provocar e minimamente induzir o leitor ao erro: não, a poesia de João Cabral de Melo Neto não é ridiculamente fácil de entender; não, a linguagem não é melosamente carregada de uma doçura lírica à moda romântica; mas, sim, a poesia cabralina é sim água com açúcar. Pelo menos, tornou-se isso pra mim, depois que assisti ao filme de Padilha.
Garapa é o nome que se dá à mistura de água barrenta (tirada dos açudes em que os homens se confundem com os bichos, como no poema de Manuel Bandeira) com umas colheradas de açúcar. Esse é o único alimento que as mães do nosso sertão nordestino têm para dar a seus filhos, que muitas o tomam na mamadeira como se fosse leite. Soco no estômago!
É por isso que Cabral pra mim virou água com açúcar. Não porque minha visão sobre o poeta mudou, mas é que descobri um novo sinônimo pra Fome. Saí da sessão humilhado, envergonhado da minha cegueira, e, relembrando as cenas, percebi que aquelas pessoas-personagens já estiveram em Morte e vida severina, dizendo:
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Márcio Hilário (continua)