Arquivo de 12 de junho de 2009

João Cabral de Melo Neto: uma poesia água com açúcar (Parte 2)

12 de junho de 2009

Resolvi, então, aceitar ao desafio de contribuir para o blog do meu amigo-irmão (espero mesmo é não atrapalhar!) interpretando um dos meus poemas preferidos de João Cabral para estabelecer um diálogo com o filme Garapa.

 

 

“Graciliano Ramos”, ao mesmo tempo em que homenageia a obra desse grande escritor, que também trabalhava a temática do sertão, faz uma auto-apresentação do projeto estético cabralino de composição. Para fins didáticos, apresentarei o poema parte a parte, entremeando-o de comentários. Lá vai:

 

GRACILIANO RAMOS

 

Falo somente com o que falo:

com as mesmas vinte palavras

girando ao redor do sol

que as limpa do que não é faca:

 

de toda uma crosta viscosa,

resto de janta abaianada,

que fica na lâmina e cega

seu rosto da cicatriz clara.

 

*  *  *

 

         Para João Cabral, a dureza de uma “vida severina” não pode ser representada por uma linguagem rebuscada e doce, como no falso sentido que o meu título sugeria antes. Uma condição tão sub-humana jamais deve ser ocultada pelo ritmo de uma entonação melódica de um verso cheio de lirismo.

 

        

      Para falar sobre o seco, é preciso ter também uma linguagem seca. Por isso, ele afirma trabalhar apenas com vinte palavras apenas. A imagem do sol retrata o elemento mais presente na vida de um sertanejo: o castigo do astro-rei, intensificado mais ainda pela ausência de chuva.

 

        

        Com relação à faca (uma dessas vinte palavras de sua poesia), ela é um símbolo da dor, do corte, do que provoca a ferida na pele e na alma do homem do sertão. Uma faca é algo que corta e certamente não passaríamos a língua na sua lâmina. Mas, curiosamente, se essa mesma faca estivesse suja pela deliciosa cobertura de um bolo, poderíamos cometer tal imprudência.

 

        

      É como Cabral vê a questão da linguagem: os floreios de uma palavra bela e sonora são como a cobertura do bolo, que esconde o que é a vida de faca do sertanejo. Vale lembrar que o título de um dos seus poemas é “Uma faca só lâmina” (veja que aqui não está nem o cabo para proteger a mão do corte!).

        

       O paralelo que podemos fazer com Garapa observa-se também no nível da linguagem: José Padilha, assim como já o fizera o fotógrafo Sebastião Salgado, optou pelas imagens em preto-e-branco. Certamente, aquelas imagens eram cruéis demais para merecerem algum colorido.

 

 

Márcio Hilário (continua)

Obs.: FELIZ DIA DOS NAMORADOS!!!