Arquivo de 11 de junho de 2009

Um problema maravilhoso!!!

11 de junho de 2009

Como coloquei em um post anterior, convidei meu grande amigo Márcio Hilário a escrever sempre que quizesse no nosso blog. Fiquei muito feliz ao perceber que ele tinha se sentido, de certa forma, lisonjeado com o convite. O resultado após nossa clássica sessão de cinema de terças feiras foi um texto imenso sobre o “incômodo” (e fantástico) filme de José Padilha: Garapa.

E porque eu chamo o texto de um maravilhoso problema??? Por causa do tamanho!!! Eu esqueci de comentar com o nosso autor que o blog é “feito” de pequenas e rápidas informações. Quando comecei a ler o trabalho, ao mesmo tempo que segurava as lágrimas pela beleza dos sentimentos expressados em palavras, pensava: como vou passar essa preciosidade adiante??? 

Conversei com meus alunos leitores do terceiro ano do leblon e, juntos, tivemos uma ideia. Vou fazer uma sequência de posts, fragmentando o texto. Assim, poderemos desfrutar da obra por completo. Então, de hoje até segunda feira, teremos 5 posts. Aproveitem…

João Cabral de Melo Neto: uma poesia água com açúcar

 

Na última terça-feira, dia 02/06, aceitei ao convite do meu grande amigo-irmão Renato Pellizzari para retomarmos a nossa rotina semanal de cinéfilos. A sugestão do filme dessa vez partiu dele mesmo: Garapa, de José Padilha – diretor conhecido do grande público graças ao polêmico Tropa de Elite e pelo excelente documentário Ônibus 174.

 

 

Como somos movidos a debates e reflexões, após o filme, o que era bate-papo, veio a mim como um convite e tocou em mim como um desafio. Eis o motivo deste pequeno texto que aqui se vai tecendo.

 

 

O título tenta provocar e minimamente induzir o leitor ao erro: não, a poesia de João Cabral de Melo Neto não é ridiculamente fácil de entender; não, a linguagem não é melosamente carregada de uma doçura lírica à moda romântica; mas, sim, a poesia cabralina é sim água com açúcar. Pelo menos, tornou-se isso pra mim, depois que assisti ao filme de Padilha.

 

 

Garapa é o nome que se dá à mistura de água barrenta (tirada dos açudes em que os homens se confundem com os bichos, como no poema de Manuel Bandeira) com umas colheradas de açúcar. Esse é o único alimento que as mães do nosso sertão nordestino têm para dar a seus filhos, que muitas o tomam na mamadeira como se fosse leite. Soco no estômago!

 

 

É por isso que Cabral pra mim virou água com açúcar. Não porque minha visão sobre o poeta mudou, mas é que descobri um novo sinônimo pra Fome. Saí da sessão humilhado, envergonhado da minha cegueira, e, relembrando as cenas, percebi que aquelas pessoas-personagens já estiveram em Morte e vida severina, dizendo:

 

Somos muitos Severinos  
iguais em tudo na vida:   
na mesma cabeça grande   
que a custo é que se equilibra,   
no mesmo ventre crescido   
sobre as mesmas pernas finas   
e iguais também porque o sangue   
que usamos tem pouca tinta.   

 

E se somos Severinos   
iguais em tudo na vida,   
morremos de morte igual,   
mesma morte severina:   
que é a morte de que se morre   
de velhice antes dos trinta,   
de emboscada antes dos vinte   
de fome um pouco por dia   
(de fraqueza e de doença   
é que a morte severina   
ataca em qualquer idade,   
e até gente não nascida). 

Márcio Hilário (continua)