Em março deste ano a Veja.com publicou uma reportagem sobre a postura dos políticos de direita norte americanos frente as medidas do presidente Barack Obama para enfrentar a crise internacional. Acompanhe alguns trechos da reportagem…
“Eminências da direita mais empedernida da política americana deram para denunciar que as medidas tomadas por Obama para combater a crise estão colocando os Estados Unidos na rota do socialismo. O senador republicano Jim DeMint, da Carolina do Sul, diz que Obama é “o melhor propagandista do socialismo“. O ex-quase-presidenciável Mike Huckabee, que perdeu a disputa pela candidatura para o senador John McCain, disse que Obama está criando “repúblicas socialistas” no país, e completou: “Lênin e Stálin iam amar isso aqui”.

O assunto virou capa de revista e está nos parachoques dos carros na forma de adesivos que saúdam o presidente como “camarada Obama” e o país como “União dos Estados Socialistas da América”. Os trombeteiros do “socialismo americano” começaram a se agitar porque, para domar a crise, o governo americano está drenando oceanos de dinheiro público na economia, despertando o perigo do gigantismo estatal.

A uma única seguradora, a AIG, já deu 180 bilhões de dólares. Só para os dois maiores bancos, Bank of America e Citigroup, entregou 100 bilhões. Às duas maiores indústrias automobilísticas, GM e Chrysler, foram 17 bilhões e talvez despache mais 22 bilhões. O mais pedestre raciocínio ideológico concluiu que, se a Casa Branca está se metendo em diversos setores da economia, o socialismo chegou à América. Ou, se ainda não chegou, está a caminho.
A coisa piorou quando Obama entregou ao Congresso sua proposta de Orçamento para o ano fiscal de 2010. Com 10 000 páginas e 3,6 trilhões de dólares, a proposta é ousada e promete uma guinada radical em boa parte das políticas públicas que os Estados Unidos vêm adotando nos últimos trinta anos. Obama propõe universalizar o sistema de saúde, incorporando os 40 milhões de americanos que hoje não têm qualquer tipo de assistência.”
Sabemos que as medidas de Obama estão muito distante do modelo socialista implementado por Lênin e companhia na Rússia revolucionária (1917). Além das diferenças de caráter político, a própria economia dos EUA está muito distante do socialismo.
Acredito, na verdade, em mais uma grande mutação desse sistema capitalista. Não há mais espaço hoje para análises simples tendo como referência apenas a dicotomia entre Liberalismo e Intervencionismo. Em breve estaremos lidando com uma nova nomenclatura para esse sistema híbrido que parece surgir.

Com o anúncio da estatização de 70% da General Motors (GM) nos EUA é provável que Obama tenha que encarar um novo “chilique” da direita norte americana além de fazer com que os “mais antigos” no mundo inteiro fiquem um pouco confusos.
Hoje, desci no elevador com um vizinho muito intelectualizado que, inclusive, já lançou alguns livros. Falamos sobre as últimas notícias e, segurando a porta no andar em que eu ia saltar para mais alguns segundos de conversa, o ouvi dizer: “Eu tenho me encontrado com alguns amigos, uns senhores de aproximadamente 70 anos, e estamos nos esforçando muito para conseguir entender este mundo!!!”
Renato Pellizzari